Barroquinha: cultura, tradição e história

vereador paulo câmara
Espaço Cultural da Barroquinha

Chama-se barroca a erosão causada por ação de água corrente em um determinado terreno. Durante o inverno soteropolitano, estação mais chuvosa da cidade, as águas iam pouco a pouco escavando o solo da rua que hoje dá acesso à Baixa dos Sapateiros. No século XVIII, a população passou a chamar a localidade no diminutivo. Assim, nasceu a Barroquinha, bairro do centro de Salvador, próximo à Praça Castro Alves, muito conhecido pelo seu intenso comércio e antigo terminal viário.

Candomblé
A Barroquinha tem grande importância histórica e cultural para a cidade. O bairro foi um dos centros de resistência da cultura africana, no período da escravidão. Muitos negros ocupavam a localidade, na época, famosa por seu candomblé, até hoje pesquisado por antropólogos e historiadores. Lá foi erguido um dos primeiros terreiros da Bahia, o Axé Airá Intilê. No século XIX, uma iniciativa de reurbanização de Francisco Gonçalves Martins, o Visconde de São Lourenço, fez com que os negros fossem retirados do local e recomeçassem seus cultos em outros bairros da cidade. O candomblé da Barroquinha deu origem aos grandes terreiros de Salvador: Casa Branca do Engenho Velho, Gantois e Ilê Axé Opô Afonjá.

Comércio e cultura
A principal rua da Barroquinha é a José Joaquim Seabra, mais conhecida como JJ Seabra. Atualmente, o bairro é bem conhecido pela sua ladeira, por muitos chamada de rua do couro, que, com seu cheiro característico, há mais de 30 anos é ponto de venda de artefatos em couro: sandálias, bolsas, chapéus, cintos, celas, alpergatas, entre outros.

Há também o Espaço Cultural da Barroquinha, onde acontecem shows, apresentações teatrais, exposições e eventos. Abrigado nas instalações da antiga Igreja da Barroquinha, construída no século XVIII, o local foi reformado e reaberto este ano e tem uma proposta popular. A administração é feita pela Fundação Gregório de Matos e é também um Centro de Convergência da Cultura Negra na Cidade de Salvador. Devido à sua importância, a construção já foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN) para que preserve a sua arquitetura original.

Baiana de acarajé é parte da identidade baiana

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Foto:Max Haack/Ag Haack

Se o Elevador Lacerda e o Pelourinho podem ser considerados símbolos materiais da cidade de Salvador, a baiana de acarajé ocupa, sem dúvida nenhuma, a dimensão humana dessa representação. Aliás, uma simbologia mais que merecida, já que o ofício se popularizou de tal maneira que praticamente não há um lugar na cidade em que não encontremos uma delas, principalmente na orla e nos bairros mais boêmios.

A história das baianas de acarajé começou ainda no século XVI, no tempo da escravidão brasileira. Muitas escravas de ganho saíam na rua com os tabuleiros na cabeça vendendo os quitutes para gerar rendimentos para os seus senhores. O bolinho era comercializado pelas ruas e para divulgá-los as escravas gritavam: “acará jê”, expressão que em ioruba significa “bola de fogo (acará) para comer (jê). Muitas dessas vendeiras eram também filhas de santo e vendiam o acará para conseguir arcar com os custos das suas obrigações dentro do candomblé.

História
O acarajé é uma comida que tem sua origem nos ritos afro brasileiros. O bolinho feito de feijão, temperado com cebola, gengibre e camarão e frito no azeite de dendê é uma oferenda ao orixá Xangô e as suas esposas Oxum e Iansã, em referência ao mito sobre a relação que o santo teria com as duas últimas. No tabuleiro, além do acarajé, é vendido também o abará, o bolinho de estudante, cocada e o frango a passarinha. Como acompanhamentos tradicionais do bolinho, o cliente pode escolher vatapá, caruru, salada, pimenta e o cobiçado camarão seco.

Popularização
O ofício de baiana de acarajé se popularizou na década de 1970 e foi crescendo até se tornar um quitute símbolo da Bahia. Devido ao crescimento do negócio, as baianas de acarajé do estado criaram uma organização para representar a categoria: a Associação das Baianas de Acarajé e Mingau Receptivo e Similares do Estado da Bahia. Também devido à sua importância histórico-cultural, a baiana foi reconhecida como patrimônio cultural do Brasil pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2005 e Patrimônio Imaterial da Bahia, em 2012. Muitas delas são chefes de família e sustentam a si mesmas e os seus dependentes com a renda que tiram dos seus tabuleiros fazendo a alegria dos turistas e nativos que frequentam os bairros boêmios de Salvador.

Dia da Baiana
Para celebrar o Dia da Baiana de Acarajé em Salvador, comemorado na terça (25), será realizada às 10h, uma missa na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, no Pelourinho.