Desde o início do mês de junho, quando estudantes começaram a ocupar as principais vias da cidade de São Paulo, protestando contra o aumento da tarifa de transporte público, o povo percebeu a sua grandiosidade e poder. A partir daí outras manifestações começaram acontecer simultaneamente em todo o país, alguns em apoio à primeira causa e outros suscitando novos temas tão importantes quanto. O auge do movimento foi dia 20 de junho, e contou com a participação de mais de 1,4 milhão de pessoas, em mais de 130 cidades, dentre elas Salvador.
Os resultados começam a aparecer, ao menos no que diz respeito a uma maior transparência pública, tirando das gavetas os projetos que há meses, ou até anos, aguardavam aprovação. Os governantes do país perceberam que o povo não vai mais se deixar enganar por projetos que são aprovados na calada na madrugada e não priorizam o que é melhor para o país.
Mas não podemos pensar nas manifestações deste ano como algo novo e que foge à realidade do povo brasileiro. “Tomar as ruas” está nas nossas veias, e não precisamos ir muito longe para lembrar de outras ações, igualmente importantes. No dia 29 de setembro de 1992 milhares de pessoas compareceram ao Vale do Anhangabaú, em São Paulo, com os rostos pintados de verde e amarelo, para acompanhar a votação que resultaria no impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Melo. As reuniões e passeatas exigindo a saída do presidente começaram no dia 29 de maio e o movimento ficou conhecido como “Caras-pintadas”.
E quando o assunto é movimento popular a Bahia, sem dúvida, merece um grande destaque. Começamos por volta de 1798 com a Conjuração Baiana. Também conhecida como Revolta dos Alfaiates, trata-se de uma ação abrangente que tinha por objetivo instalar uma república independente e libertar os escravos. O movimento contou com grande participação popular, mas foi sufocado pelas tropas portuguesas.
A própria Independência da Bahia é outro grande exemplo. A insurreição que começa em 1821, ainda com forte influência dos objetivos suscitados na Conjuração Baiana e na Revolução Liberal dos Portos, de 1820, outra revolta popular também em busca de independência. A declaração da Independência do Brasil, já em 1822, foi decisiva para que os baianos expulsassem de vez os portugueses que ocupavam Salvador e Região Metropolitana. Nesta luta histórica um dos destaques foi a participação ativa dos caboclos, referendados anualmente nas festividades do dia 2 de julho.
Outras manifestações e debates virão, afinal somos uma democracia, e sem dúvida, com as redes sociais continuaremos a fazer valer a nossa voz. E para os pessimistas, que acham que tudo está perdido e o Brasil não tem mais jeito, reflitam sobre o pensamento de Oscar Wilde: “O descontentamento é o primeiro passo na evolução de um homem ou de uma Nação”.
